Posts Tagged ‘guimarães rosa

17
fev
11

“diga o senhor: como um feitiço?

“isso. feito coisa-feita. era ele estar perto de mim, e nada me faltava. era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. era ele estar por longe, e eu só nele pensava. e eu mesmo não entendia então o que aquilo era? sei que sim. mas não. e eu mesmo entender não queria. acho que. aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. e em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que à vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. muitos momentos.”

grande sertão: veredas, guimarães rosa.

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21
abr
09

Pia Fraus e Guimarães Rosa

As margens da alegria

Em As margens da alegria, Guimarães Rosa coloca-nos diante de um Menino que, na sua lenta descoberta do mundo, transforma tudo o que lhe passa diante dos olhos em experiência de dor e alegria, vida e morte. Essa aprendizagem se dá a partir da relação direta com a natureza em toda a sua dinâmica, para a qual o Menino volta um olhar sem reservas, cheio de admiração. Aqui a infância aparece como o lugar do crescimento, da descoberta, da aprendizagem. O Menino tem como primeira fonte de conhecimento o olhar: “espiar”, “avistar”, “ver” e “vislumbrar” são verbos que percorrem toda a narrativa. É, portanto, através do olhar atento e encantado que ele conhece e re-conhece todas as coisas que encontra. O menino agora vivia; (diz o narrador) sua alegria despedindo todos os raios. E continua: Ele queria poder ver ainda mais vívido – as novas tantas coisas – o que para os seus olhos se pronunciava.

O protagonista, o menino, faz uma viagem de avião até a casa do tio numa cidade em construção, provavelmente Brasília. É do alto (do avião) que ele vai desbravando as paisagens externas. Das alturas ao chão ele mantém o encantamento, e mesmo na terra o que se oferece ao seu olhar não é maculado pela pequenez do chão, mas é fantasiado e revisto pelo lance final quando surge o vagalume.

fonte: Passeio

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A Terceira Margem do Rio

“Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.”

fonte: Releituras
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O Cavalo que Bebia Cerveja

“Essa chácara do homem ficava meio ocultada, escurecida pelas árvores, que nunca se viu plantar tamanhas tantas em roda de uma casa. Era homem estrangeiro. De minha mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo defendimento; e a morada, donde de qualquer janela alcançasse de vigiar a distância, mãos na espingarda; nesse tempo, não sendo ainda tão gordo, de fazer nojo. Falavam que comia a quanta imundície: caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces, embebidas num balde de água. Ver, que almoçava e jantava, da parte de fora, sentado na soleira da porta, o balde entre suas grossas pernas, no chão, mais as alfaces; tirante que, a carne, essa, legítima de vaca, cozinhada. Demais gastasse era com cerveja, que não bebia à vista da gente. Eu passava por lá, ele me pedia: — “Irivalíni, bisonha outra garrafa, é para o cavalo…” Não gosto de perguntar, não achava graça. Às vezes eu não trazia, às vezes trazia, e ele me indenizava o dinheiro, me gratificando. Tudo nele me dava raiva. Não aprendia a referir meu nome direito. Desfeita ou ofensa, não sou o de perdoar — a nenhum de nenhuma.”

Fonte: Releituras

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Sequencia

“Em Seqüência, décimo conto de Primeiras Estórias, e narrado em terceira pessoa, nos deparamos com a história de uma busca. Essa busca é, a princípio, material pois que um rapaz vai procurar uma vaca desgarrada do rebanho mas, no decorrer da trama, transforma-se numa busca espiritual em que a vaca transforma-se em uma ponte entre o mundo material e o espiritual. Voltamos a nos deparar com a força do destino, dentro da concepção roseana: um vaqueiro saindo à procura de um animal extraviado não percebe que está indo ao encontro da pessoa amada. Como se, na vida, o próprio acaso, tecido de erros e enganos, de repente, sem razão aparente, iluminasse o caminho certo entre os muitos descaminhos da vida.”

fonte: Passeio


Primeiras Rosas
CIA Pia Fraus

Centro Cultural Fiesp Teatro Sesi Paulista
Av. Paulista, 1.313
Bela Vista – Centro. Telefone: 3146-7405.
Ingresso: R$ 10
(qui. e sex., grátis; retirar ingr. na data da apresentação, a partir das 12h).
quinta a sábado: 20h.
domingo: 19h.




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