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O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo

Oswald de Andrade montou um estúdio no centro de São Paulo, freqüentado por jovens como Guilherme de Almeida, Vicente Rao, Inácio da Costa Ferreira, Sarti Prado, Edmundo Amaral, Pedro Rodrigues de Almeida, Leo Vaz e pelo então jovem senhor Monteiro Lobato. Maria de Lourdes Douzani Castro (Daisy ou Miss Ciclone), uma normalista de 18 anos incompletos, era a única mulher da “garçoniere”, logo cortejada por todos.

Desta convivência – em meio a receitas culinárias, obras de arte e discos na grafonola – surgiu a idéia de um livro coletivo, em forma de diário, publicado pela editora Ex Libris, com um projeto gráfico diferenciado e cuidadoso, preservando tintas e lápis coloridos, desenhos, colagens e outros meios com que os freqüentadores registravam suas observações diárias. Muitos usavam pseudônimos e Daisy ainda imitava a caligrafia de amigos para se divertir. Ainda assim, pode-se identificar a maioria: Oswald como Garoa ou Miramar; Lobato como Frei Lupus ou Irmão Ancylostomo; Edmundo Amaral como Viviano ou Viruta; o artista plástico Ferrignac como Ventânia ou Jeroly; Pedro Rodrigues como João de Barros. A seguir, alguns trechos do diário: ***

Paradoxo para uso interno:

-A mulher é a costela de Adão, o sopro de Deus e a saudade da Serpente. (João de Barros)

-… ou a saudade de Deus, o sopro de Adão e a costela da Serpente. (Miramar)

-O perigo do engasgo de Adão não foi ter sido com a maçã e sim com a própria costela. (M)

A Cyclone é a quarta virtude teologal. (CV)

É o pecado imortal. (Miramar)

Os beijos da Cyclone descendem em linha reta e sempre varonil dos beijos de Lucrécia. (Jeroly)

Os abraços dos abraços do tamanduá na parede. (M)

Miss Cyclone, meu “Vermouth Cinzano” dos ágapes “pinianos”… (Jeroly)

Lagarta rosada do meu algodoeiro! (M)

Monteiro Lobato dos opilados! (Jeroly)

Daisy é o pirão deste menu. (M)

Pensamento inconfessável de Cyclone: “Às meias luzes eu prefiro as meias de seda”. (Miramar)

Madrigal itaporanguense: “O fogo da mulher amada não queima, ilumina”. (M)

Decididamente, este covil sem Cyclone é inútil como um gramofone sem discos. (Ventania)

O covil sem a Cyclone… eu preferia, no entanto, a Cyclone sem o covil. (M)

A “mão real d’unhas perfeitas” da Cyclone é o resultado de cinco séculos de ociosidade (isto já disse Balzac). (V)

Cyclone voltou! No grande olhar desfalecido traz a vermelhidão tracômica de velhas noites de libertinhagem…

Cyclone voltou! Musa gavroche do vício ligeiro…” (V)

Cyclone voltou! No vulto desmoronado do Braz-Montmartre, das noites rubras da “Boite-à-Fursy”… Lucie-la-Pompe dos trottoirs lamacentos da Avenida Celso Garcia! Juliette Roux do Gasômetro! Nunca mais assim.

Cyclone não vem. De sua última visita, tumultuosa, incoerente, vazia, me ficou a última frase: – Não acredites mais num homem para que não fiques sabendo que existe mais um cão sobre a terra.

Daisy, minha carrocinha! (Garoa)

Esse é o meu guia e espião: arranjei um namorado japonês que possui o lindo nome de Harussam (sobrinho de cônsul japonês), vê que sorte! (Cyclone)

Há dias que um opilado de bigodinho amola o Fiori com perguntas sobre o “Nhacio” e o “otra moço”. Não há dúvidas, é o japonês da Cyclone. (G)

O Oswald me fez esta revelação: a Cyclone contratou o Spencer Vampré para traduzir as doçuras amorosas do amarelinho. (JB)

Sabes porque a Cyclone se casa com japonês? Porque gosta de “amar eles”. (Gtroçadilhista)

A Cyclone escreveu que ela é a esfinge do Brás; o japonês é a oitava praga d’aquele Egito. (Homem)

Chego; toda atarefada no casaco d’inverno, busco em toda esta esplêndida “garçoniere” os vultos amigos dos meus rapazes. Mas qual, nem um sequer a quem dar um beijo rápido de chegada. Muito grata, meus queridos pelo lindo presente. Estou com febre 38 ½!! (não se assustem). Até 3ª feira às 11 horas; aprontem o almoço “a Trianon” que virei passar aqui toda a “matinée”. Perdoem. (Cyclone – estou com uma dor de dentes).

Chego ainda a tempo de vê-la galgar ligeira o estribo poeirento de um bonde e mergulhar, com a lentidão do monstro de ferro, n’esse abismo brumoso da várzea que faz supor, para lá, no bastidor do crime das vielas, a existência de romance em que ela se obstina. Com uma timidez de potache, murmurei-lhe entre os dentes um “bom dia” idiota. Ela nem sorriu nem olhou. Partiu… Pela primeira vez, percebi uma coisa séria – que ela me faz falta. (Mirabysmo)

Toda a psicologia complicada de uma mulher está num efeito de má óptica – elas dão grande valor às coisas mínimas e com isso nos contrariam e às vezes nos assombram; às coisas realmente grandes dão o valor mínimo e por isso nos perdem. (G)

uA minha vida é assim: eu começo a fumar, você acaba… (G)

uCyclone disse que estava aqui às dez, é mentira. Até logo! Já volto. (G)

Garoa chegou de chapéu trocado e ar esbugalhado. Nova aventura. (Vivi)

Cheguei cá às 9 horas: ninguém. Telefonei para a “Gazeta” a perguntar por Miramar: – Ainda não chegou? perguntei… anda gazetando não?… e responderam-me: – Sim senhora, ele escreve na Gazeta! (Cyclone)

Versos da Cyclone: “Eu sou como uma cobra cascavel! Sou tratada a pontapé!”. (Cyclone)

A mulher não é nem o que quer. (Cyclone)

Precisamos acabar este livro. Precisamos – Porquê? Porque precisamos. O Fiori subiu o aluguel do quarto. Agora é 280$000 – um terno no Carnicelli. Vamos nos mudar, sim. Para onde? Na casa do conde. Do de Prates? Seja. A Pira desistiu. O Metropol faliu? Faliu.

A Cyclone foi-se embora. / Estou triste, Miramar chora, / Ferrignac resiste / O Leu insiste: / Foi embora? / Viruta: ora!

Eu não ficarei lá. Voltarei dentro de 1 mês. Naturalmente ficarei o resto de agosto. Quero que me escrevas para lá. (Cravinhos – Caixa do Correio 19. M. de. L. Pontes. Ao cuidado do Snr. Ignácio da Costa). Eu responderei para a Gazeta, porque o nosso retiro já é conhecido deles. Caso possa te telegrafarei da 1ª estação. Guarda as memórias contigo. Adeus. Beija a cabeça da pobre Cyclone.

…e o livro se fecha silenciosamente, com a prestigiosa atração das cousas silenciosas: “mon silence est ma force… (M)

E tanta vida, bem vivida, se acabou. (Cyclone)

fonte: Unicamp


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